Transporte é o principal desafio da infraestrutura para 75% dos industriais brasileiros

Custos logísticos sobem e comprometem competitividade de 70% dos industriais, revela CNI

Cerca de 75% dos empresários da indústria brasileira apontam o transporte como o principal gargalo da infraestrutura nacional. É o que revela o levantamento Panorama da Infraestrutura: Principais Demandas da Indústria Brasileira, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A pesquisa inédita ouviu representantes de médias e grandes empresas das cinco regiões do país e identificou deficiências que impactam a competitividade do setor produtivo.

No entanto, a avaliação dos industriais sobre a infraestrutura brasileira varia de acordo com o segmento. Os aeroportos lideram o ranking de percepção positiva, com 64% de aprovação, seguidos por:

  • telecomunicações — 62%; 
  • energia elétrica — 60%;
  • saneamento básico — 48%; 
  • portos — 44%; 
  • rodovias — 38%; 
  • hidrovias — 27%;
  • ferrovias — 21%. 

O especialista em Infraestrutura da CNI, Ramon Cunha, destaca que os segmentos mais bem avaliados passaram por transformações importantes nos últimos anos. O setor de telecomunicações foi privatizado no final da década de 1990, enquanto o segmento aeroportuário vivencia um ciclo intenso de concessões desde 2010.

Já entre os setores historicamente mal avaliados, mas que apresentam avanços, estão rodovias e saneamento básico.

“O setor de rodovias passou recentemente por um processo intenso de aperfeiçoamento de modelagem, repactuação dos contratos antigos e novos investimentos privados na malha. Assim como o setor de saneamento, que também teve um marco regulatório importante aprovado em 2020, com métricas objetivas de universalização desse serviço”, destaca Cunha.

Por outro lado, ferrovias e hidrovias permanecem entre os segmentos com avaliação mais desfavorável. Segundo o especialista, embora as concessionárias privadas sejam responsáveis por 99% da malha ferroviária, grande parte encontra-se abandonada ou subutilizada. As hidrovias, por sua vez, ainda necessitam de intervenções em sinalização, dragagem e batimetria.

Principais gargalos da infraestrutura

Entre os gargalos identificados pelos empresários, a baixa qualidade e a falta de conservação das rodovias lideram as prioridades de investimento em transporte, mencionadas por 55% dos entrevistados. Em seguida, aparecem:

  • baixa disponibilidade de malha ferroviária operante (24%);
  • escassez de zonas secundárias de despacho aduaneiro, conhecidas como portos secos (6%);
  • limitações nos acessos terrestres e marítimos aos portos (5%);
  • insuficiência de capacidade nos terminais portuários (4%);
  • restrições de oferta nos aeroportos (2%);
  • outras dificuldades (4%).

Na área de energia, os principais problemas são:

  • alta frequência de interrupções e quedas no fornecimento, mencionada por 27% dos industriais;
  • demora no restabelecimento do serviço após falhas (21%);
  • restrição de capacidade da rede para suportar a expansão industrial (16%);
  • falta de comunicação eficiente por parte da distribuidora (13%);
  • demora para novas ligações, ampliações de carga ou melhorias solicitadas (12%);
  • dificuldades para adequação interna às exigências da distribuidora (5%);
  • outras dificuldades (7%).

No saneamento, as limitações da infraestrutura regional para tratamento e destinação de efluentes são o principal gargalo, apontado por 24% dos empresários. Na sequência aparecem:

  • vulnerabilidade das redes a eventos climáticos (16%);
  • vazamentos e as perdas de água nos sistemas de distribuição (15%);
  • baixa disponibilidade de infraestrutura para produção e uso de água de reúso (15%) também foram citados.
  • redução de pressão na rede ou interrupção no fornecimento de água (14%);
  • baixa cobertura das redes de abastecimento de água (11%);
  • outras dificuldades (5%).

Já em telecomunicações, a baixa qualidade e a instabilidade do sinal de internet lideram as demandas, com 31% das respostas. Em seguida estão:

  • baixa disponibilidade de redes 5G em áreas industriais (23%);
  • cobertura limitada em áreas remotas (21%);
  • infraestrutura limitada em áreas logísticas e corredores industriais (10%);
  • baixa resiliência das redes e demora na recuperação dos serviços após falhas (9%);
  • escassez de data centers e pontos de troca de tráfego (IXPS) (3%);
  • outras dificuldades (3%).

Custos de energia e transporte pressionam competitividade

O levantamento mostra que 91% dos industriais relatam aumento dos custos logísticosnos últimos dez anos. Para 70% dos empresários, a alta foi expressiva e provocou perda de competitividade.

Energia elétrica e transporte estão entre os componentes que mais pressionam os custos das empresas. A conta de luz é considerada alta ou muito alta por 81% dos executivos, enquanto 75% avaliam da mesma forma as despesas logísticas.

Para Ramon Cunha, o encarecimento desses dois componentes tem efeitos que vão além dos custos diretos das empresas, uma vez que energia e transporte são insumos essenciais para a atividade industrial e afetam toda a cadeia produtiva.

“Quando temos um preço maior tanto para energia quanto para transporte, esse efeito deve atingir toda a economia, afetando custos de produção, especialmente custos com os insumos e a distribuição dos bens ao consumidor final”, ressalta.

Para a CNI, o elevado custo do transporte está relacionado a uma combinação de fatores, como deficiências na infraestrutura, forte dependência do modal rodoviário e despesas associadas ao ambiente regulatório.

No caso da energia elétrica, o peso dos encargos, subsídios e tributos sobre a tarifa é apontado como um dos principais fatores responsáveis pelo alto custo. Esses componentes representam cerca de 44% da conta de luz, sendo 18% referentes a encargos e 26% a impostos. A participação dos encargos e subsídios no custo final da tarifa aumentou de 2,9%, em 2017, para 18%, em 2025.

Empresários defendem ampliação dos investimentos

Apesar dos custos elevados e das deficiências identificadas, 99% dos empresários industriais consideram a infraestrutura vitalpara a competitividade dos negócios e reconhecem que a modernização da rede é indispensável.

Além disso, 98% defendem o estímulo a investimentos públicos e privados, enquanto 63% apontam o setor de transportes como prioridade estratégica.

Em um cenário de restrição fiscal, o diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, ressalta a importância do capital privado para a modernização da infraestrutura brasileira. Contudo, ele destaca que os resultados dependem também de condições regulatórias e institucionais que favoreçam a expansão e a melhoria dos serviços.

“Telecomunicações e aeroportos mostram como a combinação entre investimento privado e ambientes regulatórios mais maduros, com regras mais estáveis e modelos consolidados, pode contribuir para expandir a infraestrutura e melhorar a qualidade dos serviços prestados”, afirma.

Dependência do transporte rodoviário

A pesquisa evidencia a forte dependência da indústria brasileira do transporte rodoviário. O modal é utilizado por praticamente todas as empresas entrevistadas: 98% afirmam recorrer às rodovias para o escoamento da produção.

Além da ampla utilização, o transporte rodoviário é empregado em trajetos de longa distância. Entre as empresas que utilizam o modal, 23% transportam seus produtos por mais de 1.600 quilômetros. Outras 9% percorrem distâncias entre 1.200 e 1.600 quilômetros; 17%, entre 800 e 1.200 quilômetros; 26%, entre 400 e 800 quilômetros; e 24%, até 400 quilômetros.

Para a CNI, o uso do transporte rodoviário em percursos extensos é um dos principais problemas da logística brasileira e contribui para explicar a percepção dos empresários sobre os elevados custos de transporte no país.

A entidade recomenda que os caminhões sejam utilizados prioritariamente em trajetos curtos e médios, com integração às ferrovias, hidrovias e à cabotagem nos deslocamentos de maior distância. A proposta é aproveitar a vocação de cada modal para reduzir custos logísticos, acidentes e emissões de gases de efeito estufa.

O levantamento também aponta disposição do setor produtivo para diversificar os meios de transporte. Entre os empresários que utilizam rodovias, 45% afirmam que estariam dispostos a transferir, total ou parcialmente, suas cargaspara outros modais, desde que houvesse condições adequadas de infraestrutura.

Nesse grupo, as ferrovias são apontadas como principal alternativa, por 67% dos entrevistados. O transporte aéreo é mencionado por 21%, enquanto o aquaviário aparece com 12%.

A redução de custos é o principal fator que motivaria a mudança, citada por 82% dos executivos. Também pesam a diminuição de acidentes nas rodovias (43%), a redução das emissões de gases (33%) e a menor incidência de roubos de cargas (26%).

CNI reúne propostas para modernizar infraestrutura

Além de apresentar um diagnóstico das condições da infraestrutura brasileira sob a perspectiva dos empresários industriais, o documento reúne propostas nacionais já apresentadas pela CNI aos pré-candidatos à Presidência da República e 500 demandas locais identificadas pelas federações das indústrias. As iniciativas buscam enfrentar os gargalos identificados e modernizar o setor.

Segundo o presidente da CNI, Ricardo Alban, o levantamento evidencia a percepção crítica dos empresários sobre diferentes áreas da infraestrutura nacional e destaca os impactos dessas deficiências sobre a competitividade do país.

“O levantamento aponta problemas como rodovias em más condições, trechos ferroviários abandonados, limitações de acesso e capacidade nos portos, falhas no fornecimento de energia, dificuldades de conectividade à internet e restrições para o tratamento e a destinação de efluentes”, afirma Alban. “São gargalos que encarecem a produção, ampliam o Custo Brasil e comprometem a competitividade da indústriabrasileira”, acrescenta.

Para o presidente do Conselho de Infraestrutura da CNI (Coinfra) e da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), Alex Carvalho, o mapeamento das intervenções prioritárias reforça a importância de considerar as particularidades regionais no planejamento dos investimentos.

“Ao reunir as prioridades identificadas pelas federações das indústrias, conseguimos mostrar onde estão os principais gargalos que afetam a produção e o escoamento de mercadorias. É fundamental que essas demandas sejam consideradas no planejamento e na execução dos investimentos, para que a infraestrutura avance de acordo com as necessidades reais do setor produtivo”, destaca. 

A pesquisa da CNI foi realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, que entrevistou executivos de 2.500 empresas industriais de médio e grande portes, nas 27 Unidades da Federação. A margem de erro da pesquisa é de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

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Por Paloma Custódio

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